• Paraíso17

A denúncia

*Bruna Maria Cunha Souza
06/06/2017 12h30

Numa noite quente de verão da cidadezinha calma e pacata (Batayporã, MS), ouvem-se gritos, gritos estranhos, gritos suspeitos e preocupantes que viam de longe, mas pareciam de perto, pois o tom era alto. De sua cama, quase dormindo, Bruna Maria desperta:

 

- Crê em Deus Pai, Jesus, Maria Juusé! Que diacho há de ser isso?

 

Com medo e preocupação, ela estica seu braço sobre a cabeceira da cama, agarra o celular e, com a visão ainda embaraçada devido ao sono, ela fixa os olhos no canto superior direito do celular e olha a hora: não passava das 22:30h. Com o passar dos segundos, o barulho foi aumentando, agora já não se parecia mais com gritos e, sim, com um choro, choro de bebê recém-nascido.

 

A euforia, o desespero e o medo vão aumentando na medida em que o barulho vai se aproximando. Desesperadamente, Bruna pega seu celular e digita o número da emergência: 190! Pensando alto, diz: “E ai desse barulho não parar, eu ligo para polícia!”.

 

Passaram-se 3 minutos, o suposto choro continuava, agora em tons mais baixos. Ora ou outra, atingia um tom mais alto, mais agudo. Decide ela então fazer a tal ligação:

 

- Polícia militar, boa noite!

- Oi, boa noite, eu gostaria de fazer uma denúncia…

- Com quem eu estou falando?

- Bruna, Bruna Maria.

 

Sem esperar o policial perguntar qual motivo da denúncia, ela continua a fala:

- Eu ouço gritos, choro de bebês, ou sei lá o quê...

- Acalme-se, Bruna, você pode me dizer se a Srta. faz uso de algum medicamento controlado?

- Não, eu não sou louca, estou escutando gritos, e não estou brincando!

- Está bem. A Srta. pode me informar sua localização?

- Rua Ceará, n° 1588.

- Aguarde dentro de sua residência que logo faremos uma ronda nas proximidades.

- Obrigada!

 

Mais calma, Bruna resolve ir até à cozinha para pegar um copo d’água enquanto aguarda a chegada dos policiais e não demorou muito, pois o 4° batalhão da PM se localizava a 4 quadras de sua casa. Sendo assim, logo Bruna pôde ouvir o barulho da viatura adentrando a rua de sua casa. Passou, parou e deu ré. O barulho continuava, mas agora surgira outro barulho, porém, outro barulho reconhecível, era de alguém batendo palmas em frente a sua casa.

 

Pela espreita da janela, Bruna consegue ver o policial, magro, alto e moreno em pé ao seu portão, e então ela decide sair para atendê-lo:

- Boa noite, a Srta. é a Bruna?

- Sim, sou eu!

 

O policial, com ar de quem acabara de ouvir uma piada, não conseguia conter os risos. Bruna não entendia o motivo, pois o barulho continuava.

 

- Qual motivo de tanta risada? Pelo visto vejo que o Sr. já descobriu as causas do barulho que me causa tanto pavor.

- Descobri, sim. Venha até aqui. Olhe em direção a Av. Antônio Spinosa Mustafá, e veja, veja você mesma!

 

O suspense tomou conta do local. Eis que a cena do crime estava prestes a ser revelada, cena que na mente da garota tinha tudo para ser de fato um crime. A mente que há poucos segundos pensava milhões de ocorridos, todos ligados a situações ruins, agora com um único pensamento.

 

Com suspiro de alívio e, ao mesmo tempo com muita vergonha do policial, a garota desculpou-se pela perda de tempo, pois aquele choro de bebê e os supostos gritos não passavam de dois gatunos que brigavam por uma gata.

 

No final da história, apesar da vergonha em que Bruna ficou, tudo se esclareceu. Mas vale a pena ressaltar que nem tudo que ouvimos é realmente o que parece ser. Devemos averiguar os fatos com todo cuidado possível, antes de tomarmos qualquer decisão ou fazermos qualquer julgamento sobre determinado assunto, pois não importa qual seja a situação, não importa o tempo que demore, uma hora ou outra a verdade sempre aparecerá – mesmo que você acabe como a Bruna, com cara de tonta!

 

*Aluna do curso técnico em Agropecuária do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMS), campus: Nova Andradina. Aquariana, adoro ler livros baseados em histórias reais. Assim como qualquer outro (a) sul-matogrossense não dispensa um bom tereré.





  • subway41

VEJA MAIS